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NOTÍCIA CURTA
Já está na 4º
edição o livro paradidático e de interesse geral da Editora Saraiva
DROGAS E PREVENÇÃO: A CENA E A REFLEXÃO, de Ana Lúcia Cavalieri e Antonio Carlos
Egypto. É uma contribuição para que adolescentes e educadores pensem
o tema das drogas com abertura e realismo. Muitas escolas já o adotaram
em todo o Brasil.
20 ANOS DE
AIDS
por ANTONIO
CARLOS EGYPTO
A Aids faz 20 anos. Ou seja, há vinte anos os cientistas puderam identificar sua existência. Em sua origem africana, na verdade, ela pode remontar aos anos 50, ou quem sabe aos anos 30. Numa época em que as distâncias separavam os países, a África era um continente de povoados longínquos, com pouco contato entre si e com o mundo. Afinal, a globalização ainda demoraria muito a chegar.
O fato é que o padrão de transmissão do vírus HIV na África sempre foi marcadamente heterossexual. Quando os primeiros casos foram detectados nos Estados Unidos e, por meio deles, no Brasil, foi que a doença chegou aos homens homossexuais. De fato, eles foram os primeiros infectados e parecia que a transmissão tinha um padrão específico. Sabemos hoje que não era nada disso. Mas o preconceito social fez com que rapidamente se acreditasse numa peste gay, culpabilizando as vítimas.
Os moralistas atacaram: do castigo de Deus aos relacionamentos promíscuos e à prostituição, tentaram fazer da Aids coisa de gente imoral, depravada. Assim, ela ficaria longe do cidadão comum e "normal". A transmissão sangüínea trouxe à luz novos dados: os hemofílicos estavam se contaminando. E, neste caso, não havia explicação moral que desse conta. Já quanto aos dependentes de drogas injetáveis, o raciocínio era o mesmo: quem mandou se drogar, e desse jeito?
A primeira fase do convívio com a Aids foi marcada pela idéia dos grupos de risco. Nos anos 80, homossexuais, bissexuais, garotas e garotos de programa, pessoas consideradas promíscuas de modo geral e usuários de drogas injetáveis, além dos hemofílicos, é que tinham que se preocupar com o HIV.
Em pesquisa recém publicada, (julho/2001), "Vulnerabilidade e Cuidado às Mulheres Vivendo com HIV/Aids" - Projeto coordenado pelo Harvard Aids Institute, nota-se que a idéia de grupos de risco ainda povoa o imaginário até dos profissionais de saúde. A grande parte (cerca de 30%) das gestantes atendidas pelo sistema de saúde pública de São Paulo, Santos e São José do Rio Preto, ninguém perguntou se tinham o HIV, nem a elas foi oferecido o teste. Apesar de haver medicamentos disponíveis, uma parte das gestantes com HIV não recebeu tratamento nem informações adequadas. O que é isso? Gestante não pega Aids? Mulher casada, heterossexual e "fiel" não pode pegar Aids? Parece que a idéia dos grupos de risco continua por aí na cabeça das pessoas...
A análise dos dados epidemiológicos, no entanto, há muito tempo indica que, na verdade, qualquer pessoa pode se infectar, basta que tenha comportamentos de risco. Transar sem camisinha, não fiscalizar o sangue que recebe, compartilhar agulhas e seringas, amamentar a criança sendo a mulher soropositiva. Aí mora o perigo. A Aids diz respeito a todos e a prevenção é indispensável.
Embora isto continue sendo verdade, com a aplicação do conceito de vulnerabilidade, que se adota atualmente, isso se relativiza. Por exemplo, populações mais pobres e desassistidas, vivendo um cotidiano de violência, estão especialmente vulneráveis.
Quem sabe que tem que usar camisinha mas não tem dinheiro para comprar e não encontra a de distribuição gratuita está mais vulnerável ao vírus HIV.
Pessoas desinformadas, que não buscam ajuda, que minimizam os riscos, que relaxam a prevenção "de vez em quando", também estão obviamente mais vulneráveis.
As mulheres têm possibilidade biológica maior do que os homens de se infectar, por isto estão também mais vulneráveis. Mas cuidado, os homens se tornarão mais vulneráveis se acreditarem que só por isso estão livres de risco.
Analisar a vulnerabilidade de cada situação amplia o sentido da conversa em relação à Aids e ajuda a explicar porque a pobreza, a juventude e o gênero feminino dão o tom da contaminação no Brasil, hoje.
O HIV não escolhe cara ou atração sexual. É preciso se cuidar. Como os homossexuais e bissexuais foram atacados fortemente no início da epidemia e começaram a morrer, aprenderam logo. Incorporaram a camisinha nas relações sexuais. Enquanto em outras parcelas da população ainda vigorava o "comigo não vai acontecer", os gays sabiam que com eles estava acontecendo.
Mas tempo vai, tempo vem, os avanços se sucedem e hoje a medicina consegue prover vida melhor e mais longa aos soropositivos. E aí o que acontece? Relaxa-se a prevenção, e até os gays fizeram isso. A geração mais nova dos homens homossexuais está se infectando novamente numa escala preocupante. Será que é preciso ver os amigos morrendo ao nosso lado, para concretizar a prevenção?
Sem dúvida, nestes tempos de convívio com a Aids, a sociedade teve que abordar o sexo e a morte, como talvez nunca tenha feito antes. E como isto é difícil até hoje!
A sexualidade se transformou em superexposição e sacanagem pela mídia. Mas também acabou encontrando seu espaço na educação, na saúde, na cultura, com mais realismo e verdade. A Aids ajudou a abrir esses espaços.
Muito se falou da vida para se contrapor à morte, ou mesmo negá-la. Vida e morte estão inapelavelmente imbricadas. Uma não faz sentido sem a outra. Admitir nossa finitude, ter que pensar sobre ela, foi outra das questões importantes que a Aids trouxe novamente à tona. A onipotência tem que aprender a se temperar com a fragilidade, para produzir seres humanos um pouco melhores. É a dialética da existência.
A Aids vai se
transformando numa doença crônica tratável, mas há ainda tabus a vencer. Quais
são as conseqüências do uso dos medicamentos que compõem o coquetel que
possibilitou esse avanço? Náuseas, vômitos, diarréias, má distribuição de
gordura pelo corpo, aumento de taxas de colesterol e triglicérides, maior
suscetibilidade ao diabetes e à osteoporose, entre outras coisas, podem advir
deste tratamento, e muito raramente isto é apontado. A crença na
"miraculosidade" do coquetel, a ausência de debates amplos sobre os seus riscos
e conseqüências para a saúde têm levado ao esquecimento de que a Aids permanece
incurável e não existe vacina para preveni-la. Estas questões não estão nos
colocando em posição de vulnerabilidade frente à Aids, vinte anos
depois?
Publicado no Boletim do GTPOS nº 21.